Sucesso de público

domingo, 24 de janeiro de 2016

Seja inteira, diria Carol - sobre o filme Carol

  
Cate Blanchett e Rooney Mara

  Os nossos relacionamentos amorosos dizem muito do que somos. Os fins, o tempo de duração, as insistências eventuais ou as desistências prematuras, as lembranças que permanecem ou aquelas que juramos apagadas, mesmo quando ainda ardem dentro. Dizem sobre nós mais do que podemos confessar, desabafar, confidenciar ou levar para a análise, falam por nós no que temos de mais incontrolável, primitivo e puro. "Carol" (EUA, 2015) é um filme-espelho porque aponta o quanto todos nós estamos vulneráveis quando amamos. Carol Aird (Cate Blanchett) é um mulher forte, segura, senhora das suas decisões, uma dama burguesa que assume e sustenta, a altos custos, a escolha por um divórcio em plena década de 50, mesmo assim sucumbe quando ama. Se vulnerabiliza, perde o rumo, se confunde em decisões, a princípio, muito claras. Aird se torna o ser mais desamparado do mundo, mesmo nadando em um mar de profunda paixão; e talvez esse mar só acentue essa sensação de impotência.

  Carol Aird está em meio a um processo de divórcio, tem uma filha pequena, por quem sua delicadeza e suavidade emergem em cena - já que aparência pública de mulher sisuda é a mais recorrente -  tem uma amiga de infância com quem se relacionou amorosamente enquanto seu casamento já parecia sufocar, enfim,  Carol é uma mulher com história. A sua ida a uma loja de departamentos para comprar um presente de natal para a filha a levará ao encontro da imprevisibilidade de uma paixão.

 No balcão da loja,  constrangida ao ser obrigada a  usar um gorro de papai Noel, está a tímida Therese Belivet (Rooney Mara)  uma jovem sem o brilho e a altivez de Carol, vivendo a insegurança de um futuro que não consegue sequer vislumbrar e enredada por um relacionamento com um namorado que parece estar muito mais comprometido em um futuro com ela do que ela com ele ("eu mal consigo escolher o meu almoço", ela diz.). O encontro, que poderia ser ordinário, é o início de uma sucessão de descobertas: de outros olhares, cenários, possibilidades, das limitações e das superações de cada uma delas.

  Carol e Therese são arrebatadas,  desde a troca inicial de olhares, uma pela outra e sob as diferenças que as separam (personalidade, idade, classe social, perspectivas), o controle social do qual serão alvo (porque se a ideia de um relacionamento homossexual ainda hoje é passível de agressões, nos mais diversos níveis, nos anos 50 a questão é de ordem jurídica até) elas se entregarão, ao que para ambas, se mostrará um caminho tortuoso de escolhas, desafios sucessivos e muito crescimento, especialmente para Therese, cuja trajetória parece um pouco mais limitada de repertório. Carol tem mais histórias e mais riscos, porque tem uma filha e lida com a perseguição do marido, que não aceita o divórcio e, ainda, deseja castigá-la pela sexualidade que ela  opta por viver em liberdade e plenitude. Carol não esconde do ex-companheiro seus relacionamentos e ele que conhece a fragilidade maior dela, tenta feri-la afastando-a da filha, para então, dissuadi-la de assumir uma parte da sua identidade com a qual ela é profundamente comprometida.
   
  "Carol" não é um filme sobre amor ou sobre um relacionamento fora das expectativas sociais; "Carol" é um filme sobre a imprevisibilidade do amor e as escolhas que fazemos a partir dele. Carol Aird faz um escolha sofrida , mas também decisiva e a faz porque deseja oferecer o melhor também para sua filha. E ela explica sua escolha com a frase "Que tipo de mãe eu seria, se não pudesse oferecer a minha filha o que sou por inteiro?". O filme fala sobre o quanto  amar é mais do que um amontoado de afinidades, respeito a convenções ou acordos subjetivos, amar implica em grande coragem, oferecer ao amado e a quem nos ama aquilo que somos por completo, mesmo que seja na inteireza das nossas fragmentações.

  "Carol" é um filme sobre muitas coisas: imprevisibilidade do amor, o controle social dos corpos e o desafio a ele, as estruturas que tentam acobertar os desejos, os afetos na sua diversidade, mas é um filme, essencialmente, sobre o quanto estamos comprometidos, ou não, em sermos inteiros para nós e para quem amamos.

Carol - EUA/ Reino Unido (2015)
Direção: Todd Haynes
Duração: 118 min.

Baseado no livro "The Price of Salt" - Patricia Higsmith (1953)



quinta-feira, 30 de julho de 2015

"A História da Eternidade" - ou a história de todos nós

  
Débora Ingrid (Alfonsina)

  Qual o caminho para a eternidade? Onde nos instalamos, depois que a vida nos abandona? Em que lugar permanecemos depois da inevitável partida? Ou isto aqui é tudo? Então, passamos? E só? Não pode. Não aceitamos o final sem vestígios; nunca.  A história de todos nós passa inevitavelmente pela necessidade de permanência, mesmo quando a vida caminha para a despedida. E por isso buscamos, desesperadamente, sermos amados, notados, ouvidos, vistos, ao menos por uma fração mínima de segundo da vida, buscamos algo ou alguém em quem nos eternizarmos. E quando isto acontece é sublime, é a constatação plena de existência; existo porque o outro me vê, me tem. Se reparto, se deixo alguma marca, não parto definitivamente.

  "A História da Eternidade"(2015), é um filme singelo, despretensioso aparentemente, contudo é perturbador, altamente profundo e muito poderoso. Pois coloca na tela o medo, a angústia, os nossos sonhos e segredos mais interiores, utilizando personagens culturalmente específicos, mas que são capazes de abarcar toda a poesia sobre o enfrentamento que a condição humana nos requisita. No sertão profundo, três personagens universalizam tais questões humanas. Em um ambiente inóspito ao feminino, numa sociedade marcadamente machista, três mulheres sertanejas serão as grandes responsáveis pelos rumos da história do vilarejo que compartilham. 

  Alfonsina é uma adolescente de quinze anos, que na ausência da mãe, assume todos os trabalhos domésticos, além dos cuidados com o pai e  com os quatro irmãos. A menina sonhadora, de rosto angelical,  que sonha com mar é fortemente influenciada pela relação afetuosa e de identificação que mantém com  um tio epilético; um artista amador, cuja arte não cabe no vilarejo tão apequenado para as linguagens subjetivas e quase não cabe em si, pela saúde fragilizada e obstáculos que precisa enfrentar em defesa daquilo que ele é. Querência é uma mulher de meia idade, que acaba de enterrar um filho pequeno, ser abandonada pelo marido e que em meio a dor e a escuridão (a casa de janelas e portas cerradas) precisa lidar com as investidas de um sanfoneiro com deficiência visual, que a persegue. Querência parece não suportar, ainda, o tamanho do amor que o sanfoneiro está disposto a oferecer a ela. A outra personagem é Das Dores, uma mulher de setenta anos, devotada à igreja e aos problemas de cada morador da vila, que solitária, depois da morte do marido e da mudança dos filhos, recebe um neto em fuga. A visita do rapaz despertará em Das Dores  desejos recônditos e sublimados por décadas, o que a colocará frente a uma desordem moral e, ao mesmo tempo, muito natural -  fruto da sua solidão e carência. 

  As três personagens viverão conflitos bastante específicos e a narrativa desenvolverá as ações de cada enredo numa dimensão muito íntima, quase particular, mas ao mesmo tempo, sempre passível de identificação e projeção. Além das protagonistas, a personagem do tio de Alfonsina, Joãozinho, trará o peso da subjetividade em meio a uma sociedade  árida, dura e incompatível com as questões da alma. Neste caso, a leveza do artista pesa, incomoda e gera grande parte das lutas interiores de cada personagem. 

  A fotografia da obra é um deslumbre, as tomadas da câmera delicadas e a trilha sonora muito emocionante, todas em sintonia, para assinalar um sertão muito rico em beleza e poesia. O sonho de Alfonsina proporcionado pelo tio é um dos mais sublimes, além da performance do artista vocacionado na música de Ney Matogrosso. 

  Ao final, cada uma das personagens guardará, sob o peso de perdas e escolhas, um pouco da eternidade de outras vidas. O filme, além dos medos e angústias,  é, também, sobre marcas, memórias e sonhos. Ninguém de nós passará, seja qual o vilarejo em que nos instalamos, incólumes a dureza que é viver. Também não seremos nunca a poeira cósmica para sempre desaparecida, em algum momento nos prenderemos a uma outra vida, nem sempre por escolha nossa. A eternidade é possível, não a imaginada, mas outra, que acontece enquanto nos perdemos em desejo, sonho e coragem súbita.


A História da Eternidade ( Brasil, 2015)
Direção: Camilo Cavalcante
Duração: 120min.





segunda-feira, 6 de julho de 2015

A nostalgia da Nostalgia - sobre o filme "Nostalgia da Luz"



  Quanto tempo um filme pode durar? Digo, quanto tempo um filme permanece no espectador, ainda, depois de terminado o seu último frame? Um minuto, um dia, será para sempre? O documentário do chileno Patricio Guzmán pertence ao tempo das indeterminações. De certeza mesmo só a de que ele não acabará quando os créditos subirem. É o tipo de produção que ecoará indefinidamente, talvez mais em alguns, menos em outros, mas muito poucos passarão incólumes ao filme de 2010, lançado no Brasil em 2015,  "Nostalgia da Luz". Descobri-o há pouco, mas ele permanece, e parece, a cada dia mais colado em mim.

  O documentário de Guzmán se passa no deserto do Atacama e tem seu início muito correto e promissor, aparentemente despretensioso, com a abordagem  sobre o cotidiano em um observatório astronômico ao norte do Chile. O  Atacama tem clima, umidade e altitude que favorecem, e muito, a observação do Espaço, olhar para o céu no deserto, mesmo sem equipamento específico algum é vê-lo límpido, livre das poluições urbanas e vislumbrar constelações que parecem mais próximas. Já no início da produção trabalha-se a metáfora de um "olhar para o passado". Um dos personagens sentencia: "Olhamos o que não podemos mais mudar. Olhamos para o que já está acabado".

  Mas Guzmán pretende ir mais longe, por isso, explora um outro espaço-tempo do deserto: as escavações arqueológicas. O solo do Atacama também favorece a conservação dos nossos corpos terrenos (coincidência?), sob a sua aridez, temos também o passado dos homens, além daquele das galáxias. Mais uma vez, o olhar para o passado. E é ele quem demarcará o tempo, aproximará ofícios e apontará para as reflexões que invadirão a tela.

  No céu, sob o solo, o passado da humanidade é descortinado, mas para quê, se já é acabado? Ciência, pesquisas, saber do passado para entendermos os rumos ao qual estaremos submetidos ou pelo qual assumiremos responsabilidade. Mas, sobretudo, para entendermos do que somos feitos, para prestarmos a nossa história as devidas contas. 

  E então, o filme assume sua voz mais cara, aquela silenciada durante o duríssimos anos de governo ditatorial; o deserto do Atacama também guarda os desaparecidos políticos da ditadura de Pinochet. Entre depoimentos de astrônomos e arqueólogos, junta-se a firmeza de quem busca o passado não por ofício ou vocação, mas pelo fardo da obstinação. A coragem de ir até o fim de cada história é, também, assumir as dores e as diversas voltas que o passado esboça durante o seu resgate. Nada pode escapar à memória, nada pode sepultá-la para sempre, porque ela se dissipa e, dividida, ocupa muitas almas. Mulheres chilenas atrás dos seus mortos, de restos que as convocam aos sepultamento de suas próprias histórias. E o que antes era só um filme encantador, se torna um incômodo, ainda que terno. O desconforto também é belo.

  As personagens femininas são as mais contundentes, porque falam de um lugar para além de observadores ou perscrutadores, são elas que precisam ser encontradas; a busca de cada uma delas é por si mesma. Por isso, seguem em busca de partes, de corpos que talvez jamais encontrem, pedaços de ossos que precisam ser sabidos de fato.

   "Nostalgia da Luz" é um filme sobre o tempo, sobre quantos passados ecoam dentro de nós, sem nem nos apercebermos deles; é também sobre o tempo que a produção nos alimenta, nos leva a um outro estado. É um filme sobre a dívida e a tentativa - para sempre vencida - de prestarmos contas ao passado. O filme é arte, em uma perspectiva nietzschiana: "é a possibilitadora da vida, a aliciadora  da vida, o grande estimulante da vida". 

Nostalgia da Luz (2010, França, Chile, Espanha, Alemanha, EUA)
Direção: Patricio Guzmán
Duração: 90 min.





segunda-feira, 27 de outubro de 2014

"Eu tô falando de amor e não da sua doença..." - The Normal Heart

  
Mark Ruffalo

  Os olhos mais brilhantes, a coragem mais desconcertante, a ideia mais persistente, assim como as palavras mais atrapalhadas e, ao mesmo tempo, mais certeiras são, sem qualquer vestígio de dúvida, as de um apaixonado. Paixão é fome e fome jamais pode ser sublimada ou ignorada, porque tem urgência, não é como amor, sonho ou sexo que, por vezes, esperam firmes o momento de realização. A fome não aguarda, ela começa no agora e só termina na satisfação urgentemente consolidada; é a exigência biológica que se não satisfeita pode parar um corpo, ceifar uma vida. A fome não nasceu para esperas, ela é a medida mais grave da urgência.

  "The Normal Heart", o filme estadunidense, adaptação do teatro e produzido para TV é, sobretudo, um filme sobre o poder altamente redentor e, por vezes vezes, destrutivo da paixão. Need Weeks (Mark Ruffalo) é a materialização dessa contradição poderosa de uma forma corajosa de viver - é doce, terno, apaixonante e também  tenaz, ácido e implacável -  um homem impulsionado, dirigido (tantas vezes descontroladamente) pela paixão, nas suas mais diversas formas, todas elas passíveis de justificativa, compreensão e, especialmente, admiração.

  Início da década de 80, em plena liberação sexual gay, uma doença misteriosa e fatal, que vitima especialmente homens gays e por isso, passa a ser conhecida no meio médico como "câncer gay" é o fio condutor da narrativa, dirigida por Ryan Murphy. A doença desconhecida e, inicialmente, ocultada dos grandes meios de comunicação é posteriormente motivo para uma histeria e segregação de um grupo culpabilizado pelo seu aparecimento. Need Weeks, escritor e ativista social é o homem que não sucumbirá ao medo, vergonha ou ao terror do desconhecimento e possibilidade de contaminação. É a voz que não se cala, mesmo quando ninguém quer ouvir. 

  Em uma trajetória comovente, o homem das paixões despertará a ira de autoridades, gays enrustidos e até dos membros do seu próprio grupo de amizade e luta. Porque Weeks é um homem faminto, rejeita diplomacias que só atrasam a descoberta e a luta pela sobrevivência de cada conhecido infectado, desobedece as regras, rejeita burocracias, preconceitos e as individualidades que atravancam os caminhos para a luta. Weeks tem a fome e a coragem de um guerreiro; "pero sin  perder la ternura jamás". 

  Há também muito amor, atravessando toda a narrativa, o combate em "The Normal Heart" é bordado em um bastidor de afeto e luta pessoal pela aceitação do que se é, mesmo que isto tenha tantas vezes afastado o escritor dos seus amores mais profundos. A relação com o irmão mais velho é conflituosa, mas emocionante, terna e de uma profundidade invejável; a sua amizade, nascida a partir de uma paixão platônica pelo galã Bruce Niles (Taylor Kitsch) é perpassada pelas diferenças ideológicas e, por isso, haverá mágoa, dor e rupturas, como só as grandes amizades são capazes de suportar (ou não); a relação de descoberta e admiração com a médica Emma (Julia Roberts) uma aguerrida pesquisadora da doença, que dará a dimensão merecida aos casos e os tratamentos mais humanizados aos seus pacientes é quase maternal (ambos exercem os dois papéis, ora mãe, ora filho);  mas a maior força e também a vulnerabilidade mais emocionante de Weeks será sua relação amorosa com o apaixonado Bommer.

  Pelo amado, Weeks se tornará um guerreiro ainda mais combativo e, ao mesmo tempo, desesperado. A fome do ativista será mais latente e urgente, quando descobrem que o companheiro também está infectado; a corrida agora passa a ser contra o tempo, tempo que corre, quanto maior o desejo de torná-lo estanque.  O amor quer eternidade, a luta pede combate, mas a doença não concede o tempo para ambos; Weeks não tem escolha, ele tem fome de luta e amor e a sua urgência é bonita, mas altamente dolorosa. 

  O filme mostra a aspereza de uma sociedade egoísta, radical e altamente preconceituosa, que culpabiliza vítimas, segrega as minorias e oculta suas próprias mazelas, apontando tudo aquilo que soa, em seus ouvidos acostumados a um só ritmo, como desajustes alheios; acompanha a saga de um militante que propõe essencialmente a aceitação própria de cada sujeito e que, faminto e passional, se atrapalha em um mundo rodeado por muros racionalizantes e individualistas. Mas o filme também traz a singeleza de um amor breve e infinito, o laço que enternece um combate altamente desgastante e duro. Em tempos onde as ideologias normativas, segregacionistas e reacionárias tentam conter as diversidades e as vozes nos seus tons mais diversos, o filme é um tratado sobre o quanto apaixonar-se por uma causa é bonito, também inegavelmente doloroso, mas é a beleza maior de uma vida. E mesmo que doa, mesmo que digam que é errado e queiram te ferir pelo que você é; não é doença, é saúde maior, porque é amor.    



The Normal Heart ( EUA2014)
Direção: Ryan Murphy
Duração: 114min.







domingo, 14 de setembro de 2014

Venha ver a Frances ou a vida, sei lá...


Greta Gerwig

  A linda Nova York, fotografia em preto e branco, boa trilha sonora, diálogos engraçados e, ao mesmo tempo, contundentes - cinema para  para pensar a vida. Vida das personagens da tela ou a das personagens daqui, bem ao nosso lado, pensar na nossa própria; nos caminhos tortuosos que é a tentativa do tão sonhado encontro entre isto que já somos e aquilo que sonhamos ser um dia. Quais sonhos duram? Quais sonhos são apenas projeções infantis das quais precisamos nos soltar; libertar para morarem, finalmente, na memória? Quais permanecerão depois da maturidade? Quando é mesmo que nos tornamos maduros?  Não é Woody Allen, mas poderia ser. Não é Manhattan (1979), mas com a imagem romantizada de uma das cidades mais sedutoras do mundo, um repertório repleto de personagens "amalucados", quase pensei que fosse.

  Entre Manhattan, de Allen e Frances Ha (2013), de Greta Gerwig e Noah Baumbach um universo de semelhanças: a escolha da fotografia em P&B; os personagens neuróticos e, por isso, muitíssimo carismáticos; a reflexão sobre as exigências de uma vida muito atrelada ao sucesso aparente, a aquilo que os outros pensam de nós; a luta interior de alguém que teima em não crescer, ainda que isto seja requisitado o tempo inteiro. Entre tantas semelhanças, uma diferença crucial marca as duas obras: Frances, a protagonista de Gerwig não nos requisita muitos esforços para amá-la, diferente de Isaac Davis, de Woody Allen, a quem amamos com ressalvas. 

  Enquanto Isaac era egocêntrico, neurótico e desperdiçava o afeto que lhe ofertavam em nome de ambições maiores, de relações aparentemente mais proveitosas, Frances é a heroína pela qual qualquer um se apaixona. A mocinha de 27 anos, aprendiz de dançarina, a "Inamorável", alcunha que recebe de um dos amigos e logo assume é, apesar da fotografia bicolor, uma profusão de cores, de tons, de sons alegres e dissonantes. Frances é a bailarina de uma companhia de dança profissional que se destaca, na vida, pela falta de ritmo ou, melhor, pelo ritmo que é só dela. 

  É uma personagem com a qual, fatalmente, nos identificamos. Pela falta de jeito - pelos excessos de afeto com quem não nos retribui e pela falta dele com quem muito merecia; é quem recebe uma bolada e gasta tudo em um só dia e, depois, passa meses economizando para o aluguel; é quem nem consegue arrumar a própria cama, mas precisa muito aprender a organizar a vida; é quem sonha com um futuro improvável, no qual cabe a melhor amiga, enquanto fumam e, antes que o cigarro apague, é abandonada por ela, com cigarro e sonhos na mão. 

  Frances é a heroína que dança, cozinha, faz piadas, convida para jantar com o dinheiro que acaba de receber, brinca de lutas em pleno Central Park e tira as meias, ao se deitar, tudo isto para agradar seus melhores amigos, na tentativa de todos nós em sermos amados. Que some, vai para a casa dos pais para não ser encontrada, omite seus insucessos profissionais daqueles que ama, viaja à Paris por dois dias e se endivida por um ano inteiro, também na tentativa de algum amor; da descoberta de algum tipo de afeto. E em uma confissão embriagada faz uma das melhores descrições sobre a busca de tal amor: “É isso que eu quero em um relacionamento, o que meio que explica porque estou solteira agora. É difícil de explicar. É uma coisa quando você tá com alguém e você ama a pessoa e vocês sabem disso. Vocês estão juntos, mas é uma festa, sabe? Os dois estão conversando com pessoas diferentes. Você tá lá sorrindo e olha para o outro lado da sala e vocês trocam olhares. Mas não porque são possessivos ou que seja algo sexual, mas apenas porque aquela é a pessoa da sua vida. E isso é engraçado e triste, mas só porque esta vida vai terminar. E  é esse mundo secreto que existe bem ali em público, mas imperceptível, que ninguém vai ficar sabendo. É tipo como dizem, uma outra dimensão que existe ao nosso redor, mas não temos a habilidade de notar. Sabe? É isso. É isso que quero de um relacionamento. Ou da vida, eu acho. Amor. Parece que tô viajando, mas não tô…”. O álcool fala bem, através da doce e desajeitada Frances. E Frances encontra este tipo tipo de amor, porque ela sabe o que procura; e, quando identifica é emocionante. 

  A comédia não dói, não deveria mesmo, mas faz pensar em tudo aquilo a que precisamos nos adaptar, sem perder nossos sonhos mais profundos de vista, mas aprender que eles quase sempre precisam de maturidade e tempo para serem construídos de verdade. Frances Ha e Manhattan, em alguma medida, nos dão esperanças. Sem a fantasia de um mundo colorido, mas de cores possíveis de serem vislumbradas em   meio ao preto e branco do mundo real. Frances Ha fala de uma esperança que não  é aquela verde com a qual sonhamos na infância, mas que também é bonita e, o melhor,  é possível.


Frances Ha (EUA, 2013)
Direção: Noah Baumbach
Duração: 86 min.



segunda-feira, 28 de julho de 2014

O espelho a observa - sobre "Os belos dias"


Fanny Ardant
  Em frente ao espelho, agora, você o olha ou é ele que olha para você? Esta perspectiva inusitada e, aparentemente, simples faz toda a diferença sobre o que se é ou, ao menos, deseja-se ser. E em "Os belos dias" (França/2013) somos delicadamente confrontados com este espelho. Quem olha o quê?

  O que uma mulher de sessenta anos que acaba de se aposentar deve fazer para ocupar seu tempo? Como uma mulher recém-aposentada, abalada pela morte recente da melhor amiga deve procurar se adaptar a nova vida? Qual o tamanho das suas perdas? Será maior que as suas aquisições? 
Todos somos capazes e, mais do que isto, estamos frequentemente tentados a responder a essas perguntas, quando elas são a respeito de alguém, de qualquer outro, desde que não sejamos nós mesmos. Novos amigos, atividades artísticas, aulas diversificadas e trabalhos sociais são algumas sugestões que Caroline (Fanny Ardant) receberá a todo o tempo, de pessoas próximas ou não, gente que tem o receituário vasto para que os dias  do outro sejam belos, mais que os dele próprio. Já que ele não tem o tempo disponível, a situação financeira favorável  ou as oportunidades subjetivas que o objeto da sua especulação tem. A vida do outro é infinitamente mais fácil e afortunada do que a nossa própria, não é? A grama ao lado parece-lhe mais verde?

  Quando Caroline recebe um  vale presente de uma das filhas para se matricular em um clube para idosos o "Belos dias", ela saltará, em pouco tempo, do "presente de grego", ao passaporte rumo a uma nova e definitiva experiência. Sua resistência em se integrar ao grupo, que, inicialmente, parecerá mesmo muito diferente dela, exóticos até, será paulatinamente quebrada e a levará a um outro lado de si, sem os convencionalismos do receituário generalista dos leigos. No clube, Caroline conhecerá um professor de informática, quase com a idade de uma das suas filhas, com quem se relacionará amorosamente. Um romance que trará à vida da protagonista a novidade, as novas cores, a imprevisibilidade e o descompromisso do qual ela há muito parecia afastada. A relação entre os amantes modifica não só a ambos, mas a vida de todos que estão a volta do casal, contrariando a perspectiva de que, qualquer decisão ou atitude, tenha consequências estritamente individuais. 

  O marido de Caroline, evitará, a maior parte da narrativa, qualquer confronto, parecerá, inclusive, que não desconfia minimamente da infidelidade da esposa, mas a rotina do casal será drasticamente afetada; com os compromissos sociais esquecidos por ela, seus desaparecimentos frequentes, o tempo da aposentada subitamente muito ocupado e a vida familiar que parece perder o lugar de prioridade. As colegas do clube também perceberão o envolvimento de Caroline com o professor e o verão com bons olhos, se sentirão "vingadas" por uma mulher da geração delas não ser a vítima de uma traição conjugal, mas a autora desta. As amantes do professor, funcionárias do clube, também serão afetadas pelo novo relacionamento do jovem com uma senhora, a quem acham velha demais para ele, sem atrativos sensuais. 

  Enquanto as impressões alheias não parecem afetar o casal, o relacionamento vai bem; com alguns desencontros, algumas dificuldades próprias de qualquer relacionamento amoroso e outras muito específicas: a dificuldade do jovem amante de se comprometer (ou entregar-se) afetivamente com (a) qualquer parceira; a insegurança inicial dela, com o seu próprio corpo e suas emoções afloradas e recentes. 

  Depois das primeiras dificuldades particulares do casal, eles terão que aprender a lidar com os empecilhos públicos. O primeiro confronto será entre Caroline e o seu marido, que revelará, a partir de um diálogo duro, difícil,  e, também, cheio de beleza,  que conhece o seu envolvimento amoroso. Magoado, o homem trará à mulher a questão permeada de rancor, que desnudará completamente a personagem central do filme. "- Caroline, você está se relacionando com um rapaz que tem idade para ser seu filho! Você já se olhou no espelho?"  Surpreendida, mas altiva, Caroline se define: "- Não, pois é ele que me olha."

  Ao dizer que não se olha ou se preocupa em olhar o espelho, Caroline abre mão de ser aquilo que querem que ela seja. Ao evitar a dependência do reflexo da sua imagem, ela ressignifica o objeto, que deixa de ser o olho alheio, que limita, que diz por quais caminhos seguir, para ser mero espectador de alguém que tem a própria vida em suas mãos. Caroline assume seu lugar de pessoa ativa, indiferente a opinião alheia e coloca o lugar do espelho, onde ele deve estar, de objeto, apenas.

  A narrativa ainda se desenrolará mais a frente, com confrontos mais interiores e reflexivos, mas, ao mesmo tempo, sem ser pedante ou existencialista demais. A narrativa é leve, cheia de sutilezas, sem grandes impactos ou sobressaltos dramáticos e com personagens bastante singulares. Os belos dias, aqui, são feitos  disto: singeleza, melancolia e alegria na medida, sem consultas obcecadas aos cruéis espelhos. E você, olha o espelho ou  aprendeu a se deixar olhar por ele?

"Os Belos Dias" (França, 2013)
Direção: Marion Vernoux
Duração: 94 min. 







quarta-feira, 7 de maio de 2014

Álbum de família - no lugar das fotos, a palavra

  
Julia Roberts

  A palavra consola, agrega, conforta, frequentemente, nos salva; pela palavra o bom pastor arreda suas ovelhas da escuridão, da lábia do lobo oportunista; a palavra absolve-nos em um julgamento: mantém-nos inocentes, independente do crime; crime maior é o de não usá-la ou fazê-lo inapropriadamente. A palavra nos impele a dor de uma verdade, derrota-nos, nos condena a um destino indesejado. "Álbum de família" (2013) é um filme sobre palavras, especialmente, sobre aquela que é negada. Na primeira cena, uma frase de T.S. Eliot: "A vida é breve" e a personagem, um professor de literatura aposentado, que a cita, tem a sua participação igualmente breve, mas é partir de seu desaparecimento que as palavras, sucessivamente negadas, ganham voz, muitas vozes, ao menos, quatro fortes vozes femininas. E depois do primeiro grito, não há como calá-las mais.

  Depois do desaparecimento, o encontro das quatro vozes distintas e a dificuldade do diálogo. A matriarca, que em um primeiro momento aparece fragilizada por um câncer de boca e o uso abusivo de remédios, se revelará, ao longo da trama, através delas: as palavras. Contundentes, afiadas, permeadas de preconceitos, quentes e dolorosas como brasas, ela usa-as, especialmente para ferir, para mostrar sua força. E, mesmo acometida por uma doença que parece limitar-lhe a fala, sua pontaria é certeira , nunca erra um alvo. As palavras, antes, contidas  pelo pai sensato ou pela distância - já que somente uma das filhas permanece na cidade da família - já não conhecem mais barreiras, deixam de ser negadas e saem às enxurradas, destruindo tudo pelo caminho.

  A segunda voz, tão forte quanto a primeira, é a de Bárbara, filha predileta do pai, a quem ele depositara as expectativas de uma carreira literária, mas a filha talentosa se casa e segue o marido, professor universitário, de quem acaba de se separar. Mãe de uma filha adolescente, vivendo a dor de um término e, principalmente, a incompreensão deste, ela é requisitada a todo o tempo a remediar as crises familiares e como a mãe, suas palavras, negadas na literatura; na vida,  têm a potência destruidora de uma bala de metal.

  As outras duas irmãs, têm vozes secundárias, Ivy é calada pelo medo, sua fragilidade é medida pela escassez de palavras, quase não se manifesta verbalmente, aparece pequena, escondida, preterida, a única a permanecer na pequena e quente cidade. Ivy só aparece quando não aguenta mais se calar e também fala, surpreendentemente tão feroz quanto as outras. Já Karen é a própria superficialidade de seu discurso. Parece não fazer parte de nada, nem família, nem cidade, nem do luto.

  Conhecemos cada uma das personagens pelo que, até então, calado, aos poucos, vem à tona. A trama se desenrola, sobretudo, nos diálogos (talvez porque o texto do filme seja uma adaptação do teatro) marcados pela tensão, pelos rancores e segredos tão abundantes, que só cabem em recipientes profundos, guardados pelo cadeado da memória. "Álbum de família" é um filme árido, desconfortável, um deserto de afetos, cujas tempestades vêm em forma de palavras. O filme nos faz lembrar do poder destruidor delas, da força aterradora de uma voz por muito tempo calada, ainda que voluntariamente, pois as palavras ferem, mas quando negadas, ganham, com o tempo, o tempero intragável da amargura. E depois dos ritos, das fotos, das reuniões gastronômicas, o gosto amargo de um desfecho apropriado. Não há um só sobrevivente no embate, entre mortos e feridos, a última e derradeira palavra: - apague a luz quando sair.


"Álbum de família" -  (EUA , 2013)
Direção: John Wells
Duração: 121 min.