Sucesso de público

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Alguns perdem mais que os outros - Sobre "Jovens Adultos"

Charlize Theron
  "Não se conhece um livro pela capa", é quase sempre um bom conselho, mas entre reconhecer isto e seguí-lo, há uma distância bastante considerável. E, assim sendo, nos primeiros minutos da trama de "Jovens Adultos" rendo-me a infeliz anti-heroína Mavis Gary, em um misto de pena, desejo de redenção e "vergonha alheia", e por isto, justifico quase todas as sucessivas trapalhadas que a personagem de Charlize Theron se envolve. Isto somente no começo da narrativa, até que, as atitudes de Macy se tornem cada vez mais injustificáveis.

  Macy Gary está recém divorciada, é uma "ghost writer" (autora que escreve, mas não assina) de um sucesso adolescente em franco declínio. É bonita ("linda de doer", na verdade), aparentemente bem sucedida, mas visivelmente infeliz. E talvez em razão dessa melancolia atraente, que Macy cative o incauto espectador. Em uma decisão aparentemente súbita, depois de receber um e-mail genérico de seu ex-namorado, com o convite para conhecer sua filha recém nascida. Macy decide "fugir" da infelicidade que a cerca e viaja rumo ao que abandonou um dia, seu passado na pequena cidade de Minnesota, EUA. De maneira mais específica: Macy parte em missão, para salvar o ex-namorado, da vida pacata na cidadizinha que ela tanto despreza. 

  Nos "bastidores" dessa viagem é que, aos poucos, Macy começa a ser desmascarada, sua "beleza grega" é, na verdade, um amontoado de próteses estéticas (capilar, de seios, quilos de maquiagem), os diálogos dos seus livros para "jovens adultos" (eufemismo para "infanto juvenil") são "roubados" de conversas adolescentes reais que ela sorrateiramente ouve e transcreve. A Macy cotidiana é triste, despreocupada com a sua aparência, é desprovida de qualquer gentileza e simpatia, mas "traveste-se" de uma mulher bonita, bem sucedida e quase feliz, para reencontrar-se com Buddy (seu ex-namorado), a personificação dos seus áureos tempos de escola. Seu primeiro reencontro, ao chegar à cidade, no entanto é com o "desconhecido" Matt, colega de escola, de quem a popular aluna, de início, não se lembrará. Matt e Macy serão a inesperada e improvável dupla responsável pelas maiores reflexões que o filme despertará.

  "A rainha da beleza" dona do trófeu de "cabelo mais bonito" da escola - que por ironia sofre de tricotilomania (mania de arrancar os próprios cabelos), talvez em uma alusão a seu comportamento autodestrutivo (em uma análise mais profunda: fruto de uma conduta que a levará à morte social, solidão e depressão imposta a si mesma; Macy não se sente merecedora de nenhuma benesse que a vida lhe dê.) - será amparada por Matt o colega nerd da escola, que carregará os traumas e sequelas de um espancamento coletivo pelos atletas da escola, os "amigos" de Macy. Esses dois "infelizes", aos poucos revelarão muitas similaridades, até então, impensadas. Ambos são incapacitados pelas suas "deficiências", a de Matt, que é física acabou-se ampliando para o campo emocional, rancoroso, magoado, ele "decide" não superar o passado, pelo contrário, suas justificativas para uma vida incompleta e precária estão atreladas à violência sofrida; já Macy tem a deficiência do afeto, ela é incapaz de amar alguém (nem família, cachorro ou Buddy), alguma coisa (está em crise profissional e parece só fazer pelo dinheiro) ou algum lugar (sua cidade natal é seu inferno pessoal, a cidade atual é só um meio para o sucesso); ambos dividem um desprezo para os com "felizes sem razão", sujeitos que convivem bem com as "ausências" que a vida impõe, o deficiente físico, o morador comum de Minnesota, enfim qualquer ser ordinário, que aprecia a própria vida. Unidos pela infelicidade a dupla nos despertará para o questionamento: Quantas deficiências carregamos e quantas superamos?

  Depois de uma série de eventos vexatórios e que talvez servisse como um degrau para o crescimento de qualquer um de nós, Macy despreza o aprendizado e segue sendo o que sempre foi: "rainha de coisa nenhuma", incapaz de aprender, crescer ou se libertar da dura pena que é a de ser completamente desprovida de afeto e doação. Macy não tem sua redenção, por opção própria, o filme não tem final feliz e por isto é maravilhoso. "Jovens adultos" é um tratado bastante atual sobre personagens que crescem, mas não amadurecem, o filme desperta para a dura, mas necessária reflexão: o quanto estamos perdendo, enquanto só queremos ganhar. O quanto estamos presos a uma imagem fantasiosa que fazem de nós mesmos e nos esquecemos de quem somos, quando sozinhos, trancados no nosso apartamento. Ser feliz está muito longe de "parecer feliz", não há prótese possível para a falta maior, que é a de faltar-se a si , não há extensão artificial para a falta de volume no espírito, nem maquiagem que transforme uma alma precária. Doar-se, sem pedir nada em troca é a maneira mais genuína de ampliar ganhos, mas isto é coisa para adultos, que mais do que crescer, amadureceram de fato. O filme é perturbador, pessimista e, finalmente, altamente recomendado.


"Jovens Adultos" (EUA, 2012)
Direção: Jason Reitaman
Duração: 94 min.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Escolha o seu lado - Sobre "O lado bom da vida"

Bradley Cooper
  
  No jornal local as sinopses dos filmes em cartaz não são nada confiáveis, mas ele é, ainda, a minha maior fonte de "consulta" sobre o assunto, porque a informação quanto ao horário das sessões é, até hoje, preciso. E é tudo o que eu realmente desejo saber sobre um filme antes de vê-lo. 
  
  O gênero, de acordo com a publicação, é comédia romântica, disso também desconfio, só no último mês, dois dos filmes que vi, não correspondiam ao gênero anunciado na coluna. Que seja, gosto de surpresas. A companhia para o programa também não podia ser melhor, assistiu o filme duas vezes, em casa, e quase nada me revela sobre ele. Ela gostou, possivelmente eu também goste. Não sou exigente e gosto, sem medo algum de admitir, muitíssimo de comédias românticas (não julguem-me por isto!). Não preciso justificar meus gostos, tampouco este até bem comum, mas ainda assim o faço: afora as análises muito rígidas sobre tal estilo de filme "mulheres gostam porque este gênero de película repetem os modelos dos contos de fadas infantis, em que um 'príncipe encantado' surge para salvar a mocinha de um mundo de infortúnios"; carrego comigo a crença de que as comédias românticas são o bálsamo em meio a uma vida de dureza, obrigações massantes e uma realidade cruel, imperfeita e permeada de desencontros. Tal gênero, a mim, possibilita algumas horas de uma respiração descomprometida fora do meio, tantas vezes, sufocante, que é a vida cotidiana. Happy ends cinematográficos são a visão, ainda que perecível, de uma paisagem otimista. O filme, no entanto, adianto para quem não viu, não é uma comédia romântica e sim dramática. Neste caso, a informação imprecisa não comprometeu. A mim, fez um "efeito" de comédia romântica, com os impactos que acabei de listar.

  "O lado bom da vida", é uma adaptação do primeiro romance do professor de inglês Matthew Quick. O filme, sucesso de público (indicado a oito categorias do prêmio Oscar de 2013) conta a estória de Pat Solitano (Bradley Cooper) e se passa em um típico subúrbio americano. Inicia-se com a saída dele de um hospital psiquiátrico, ainda que não recomendada pelos médicos, mas autorizada e muito desejada pela sua mãe. Pat, diagnosticado com bipolaridade, precisa se adaptar a um nova vida, repleta de limitações: sem esposa, de quem está judicialmente proibido de aproximar-se; sem emprego e sem a própria casa, além , é claro, da rotina enfadonha do próprio tratamento, com visitas ao terapeuta e medicação controlada. O retorno de Pat ao convívio social, é dos mais comoventes, o "otimismo químico", a falsa sensação de retomada do tempo perdido, a emoção da família em vê-lo de novo, o desconforto dos amigos que não o visitaram e as suas desculpas tão pouco verídicas, tudo está lá. 

  Obcecado pelo retorno da "vida anterior", pela mulher, a qual torna-se a grande meta e objetivo de "cura" e evolução, Pat nos rouba o coração, sensibiliza e nos força a algum tipo de identificação. Seja pela fragilidade (no seu caso a doença psíquica), pelos momentos de euforia intercalados com depressão e fúria, seja pela vontade genuína de ser melhor para alguém. Aos poucos somos apresentados à família, amigos e, finalmente, à dinâmica a qual Pat precisa se adaptar: a mãe amorosa, abnegada e excessivamente zelosa; ao pai jogador compulsivo, rígido, claramente afetado pelo TOC, ao irmão tosco, não suavizado por qualquer verniz de sofisticação ou delicadeza, ao melhor amigo, cheio de boas intenções, mas completamente controlado pela mulher. Pat receberá ainda as visitas do amigo da clínica, em fuga, frequentemente, e conhecerá Tiffany (Jennifer Lawrence), com quem veremos aflorar uma relação conturbada, mas, ao mesmo tempo, delicada, enriquecedora e repleta de entendimento mútuo.

  Pat e Tiffany, aos poucos formarão um casal,  bem pouco convencional, é verdade, mas muito promissor. Pois ambos são a doença e a cura; o que impede e o que impulsiona; são a loucura e a sanidade; agressividade e sutileza; são ódio e amor, tudo junto, ao mesmo tempo e aprendem um com o outro a dinâmica de uma relação muito própria. À certa altura do filme, compreendemos que os sonhos de Pat Solitano não são passíveis de realização e o passado de Tiffany não poderá ser apagado, mas isto nem ela mesma deseja, quando diz a frase emblemática: "eu tenho um lado sujo e gosto dele também" e Pat descobrirá outras metas, outros sonhos, outros motivos para desejar melhorar.

Não sei se pela sensação de comédia romântica, não sei se pela dança (que adoro) - Tiffany e Pat participam de uma competição - não sei se pela trilha sonora  pouco convencional, com destaque para "Girl from de North country", de Dylan e Cash, pela interpreyação de Robert De Niro, com quem sempre me emociono  ou mesmo pelo tema, mas "O lado bom da vida" conquistou meu coração.

  O filme nos faz pensar que, amar, é também entrar na loucura de quem se ama, para só assim ser possível tirá-lo de lá. Amar, inclusive, é respeitar e nunca temer a loucura alheia, nem a própria. Que o sucesso da última dança não consiste em dançar um único estilo com perfeição, mas somente o suficiente de uma variedade maior de estilos. Em um mundo cada vez mais exigente, mais apegado à perfeição, ser razoável talvez seja a maior fonte de felicidade. O lado bom é muito mais o olhar que ofertamos para cada situação, do que a situação em si. Nisto o filme não é nem um pouco trivial. Meu coração ele já tem e, só por isto, eu já daria o Oscar para ele. Porque, para meu entendimento, eis a maior propósito do cinema: emocionar. A mim, por estas e outras infinidades de razões que jamais poderei explicar, o filme tocou.


O Filme: "O lado bom da vida" (EUA, 2013)
Diretor: David O. Russel
Duração: 122 min.

O Livro: "O lado bom da vida"
Autor: Matthew Quick
N° de páginas:256



terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Sonhos que movem - Sobre "os Miseráveis"

Anne Hathaway

 Como recontar uma estória escrita há mais de um século (1862), já  com dezenas de adaptações para o cinema, televisão e teatro e ainda assim despertar um crescente interesse do público contemporâneo, aparentemente cada vez mais ávido por novidade? Como a adaptação de uma adaptação (o filme é a adaptação,  do musical da Broadway "Les Misérables", de 1987, adaptada da obra de Victor Hugo) pode ser tão bem sucedida entre o público e crítica e ganhar novos fãs a cada dia? Como um musical, com duração de quase três horas, pode "aprisionar" até um espectador pouco simpático aos musicais, na cadeira do cinema? Como em uma única fita abordar temas, aparentemente tão diversos, como: injustiça, perdão, redenção, fé, ideologia, política, amor romântico e, ainda assim, dar conta de todos eles, sem "atropelar" o espectador?

  O sucesso de "Os miseráveis"(2013), parece-me ser a linha discreta, porém visível, que alinhava a emocinante saga de Jean Valjean, condenado a uma dura pena por roubar um pão para alimentar o sobrinho faminto, que encontrará sua redenção no amor fraterno de um religioso que possibilita uma nova chance ao homem injustiçado. A linha que costura as estórias do filme (o recomeço de Jean Valjean, a obstinação do inspetor Javert em prender o "fugitivo" Valjean, o triste destino de Fantine, a adoção de Cosette, a ambição sem limites dos Thénardier, o amor não correspondido de Éponine por Marius, a revolução francesa, a reciprocidade de afeto entre Cosette e Marius e, finalmente, o desprendimento de Jean Valjean, para que a filha conhecesse a felicidade) é a, algumas vezes trágica, mas sempre propulsora linha chamada, sonho. Em " Os Miseráveis" todas as personagens são conduzidas e, mais, impulsionadas, pelos próprios sonhos. Seja de maneira mais individual (Fantine que sonha em ter por perto a filha Cosette) sejam aqueles mais coletivos (como os ideais dos revolucionários franceses), todos lutam por algum sonho. Alguns caírão durante a dura batalha, outros poucos permanecerão de pé, mas todos experimentarão a força que move a humanidade - o sonho. 

  E, é exatamente através desta "linha" que um dos musicais mais emocionantes do filme será conduzido, a cena de Fantine (a incrível  e afinadíssima Anne Hathaway) cantando um dos temas mais bonitos de todos os tempos, a linda "I Dreamed a Drem") é tocante. Para quem conheceu-a na voz da até então desconhecida e estranha caloura do famoso show de talentos inglês, Susan Boyle, há anos atrás, talvez emocione-se ainda mais. Porque a memória subjetiva trará à superfície, a história também triste de uma personagem real, cujo sonho torna-se motivo de vergonha, juntamente com a personagem de Victor Hugo, que tem seus sonhos despedaçados, ambas, por um momento, dividem  a mesma perspectiva. É como se Susan e Fantine carregassem um pouco de nós em cada desilusão, cada triste derrocada e nós as trouxéssemos conosco em cada sonho nosso, ainda possível.  Por apenas uma linha tênue o fracasso e o sucesso, de um lindo sonho, estão separados.

  Emocionante também é a estória de Éponine, personagem cujos modelos familiares negativos não são capazes de torná-la egoísta ou má. A filha dos Thénardier não mede esforços para ver seu amado feliz, ainda que isto signifique estar ao lado de alguém que não ela. Este amor abnegado também é virtude de Valjean que mesmo desejando a companhia de sua amada filha Cosette, decide deixá-la viver seu amor com Marius, protejendo-a de seu passado obscuro.

  Suspeito que poucos são os que não se emocionarão. Terminado o filme, saímos do cinema com a forte sensação de que miseráveis mesmo são os que nunca sonham, que nem ao menos têm a possibilidade de verem seus sonhos despedaçados. Miseráveis são os que não deixam-se impulsionar por um grande sonho.  Existe maior pobreza que falta de sonho?


Em tempo: Lembrar-se de Susan Boyle ao assistir ao filme não é uma simples "brincadeira do destino". Li isto, ontem:  http://caras.uol.com.br/data/oscar-2013/post/susan-boyle-motivou-a-adaptacao-de-os-miseraveis-para-o-cinema-diz-produtor-teatral#image0

"Os miseráveis" (Reino Unido, 2013)
Direção:Tom Hooper
Duração: 158 min.




segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

"O que não tem censura nem nunca terá...o que será, que será" - Sobre "Amor"

  
  Nunca conherecemos nosso próprio limite até sermos postos à prova. Só compreenderemos, de fato, até onde somos capazes de ir, até nós irmos (porque "iríamos" é possibilidade, não é o chegar lá) ao que consideramos nosso máximo. Eu faria, seria, escolheria, entregaria é vago; é suposição, somente possibilidade. É só quando a situação é presente, que sabemos quem somos e até onde vamos ou nos deixamos ir.

  O filme chama "Amor", é francês , é um drama e a surpresa é que não há um só clichê em toda obra fílmica. Só o fato de fazerem um filme (meio que se utiliza-se da "arte de iludir" e, frequentemente, "recicla" inúmeras  referências já conhecidas) francês (com aquela tonelada de estereótipos sobre o país) e com este título perigoso (já que permite uma série de expectativas) sem parecer um "déjà vu", só por isso já vale conferir.

   Em "Amor", primeiro somos convidados a conhecer um simpático casal octogenário, independente, aparentemente harmônico e muito afetuoso, casal daqueles que muitos de nós já sonhamos em compor, um dia. Depois de voltarem de um concerto - a esposa Anne é uma professora de música aposentada e ambos são apaixonados por música clássica - conhecemos um pouco da intimidade delicada do casal, a volta para casa no transporte coletivo, o apartamento e seus móveis, livros, CD's, um pouco do cotidiano banal, medo da insegurança urbana. Já na manhã do dia seguinte, a trama ganha uma nova trajetória, as amenidades são substituídas por momentos de profundas incertezas, vulnerabilidade e adaptação. Anne sofre um AVC (acidente vascular cerebral), é internada para desobstruir uma artéria e nas palavras do próprio marido Georges, ela faz parte dos 5% de insucesso, das estatísticas. A cirurgia fracassa, Anne tem alta e volta para casa com o lado direito completamente paralisado. Já na sua chegada ela pede ao marido que nunca volte a interná-la, pois pretende terminar os seus dias no apartamento do casal. Georges e Anne têm, ainda, uma filha, pouco presente, uma musicista casada com um maestro renomado, que tenta convencer o pai a oferecer à mãe apenas os cuidados de especialistas. Mas, Georges mantém-se firme, até as últimas consequências, na promessa de não internar a esposa.

  A partir da nova condição de Anne, as inúmeras adaptações passam a ser frequentes e mais pungentes. Georges, seu fiel e doce companheiro, assume um novo papel, pois se antes ele era a parte mais frágil do casal, aquele que é "cuidado" pela parceira, ele rapidamente torna-se o cuidador da companheira debilitada. E nesta nada fácil missão, vemos a superação de um homem (aparentemente tão frágil), a dedicação ilimitada de um companheiro e a luta pela recuperação da saúde, conquista do bem estar (aceitação e conforto) e manutenção da dignidade de ambos.

  Aos poucos, somos convidados à reflexão e a identificação com a trama comovente e cada vez mais dura a qual acompanharemos. Não comover-se, a esta altura, creio não ser possível, afinal quem já testemunhou um ente querido paralisado, em sofrimento constante, sem medicina ou afeto possíveis, que curem ou, pelo menos, aplaquem a constante deterioração do ser que amamos, chora. Quem pensa ou já  pensou no seu destino futuro se compadece e também deixa as lágrimas rolarem. Anne sofre um outro AVC, tem sua capacidade de fala e raciocínio afetados, Georges conta com a ajuda de apenas uma enfermeira e parece cada vez mais debilitado. Neste momento da trama nos tornamos testemunhas oculares de um crime (?) motivado por amor, mas que não é passional, que pretende agir em defesa da vida, mas que não é legítima defesa. Um crime justificável e justificado. Em "Amor", compreeendemos que amar, às vezes, é fazer algo terrível, mas que você sabe que aplacará a dor de quem se ama; é colocar-se à disposição de uma culpa eterna para oferecer conforto ao outro.

  "Amour" merece ser visto, revisto e, principalmente, "sentido". Não vê-se uma estória dessas e se sai o mesmo, não entra-se na sala de cinema e continua leve a comer a pipoca; refrigerante ou água não tirarão o nó da garganta.

  Vale, ainda, o conselho: o filme é indicado para os suficientemente sensíveis que se entregarão e serão tocados pela estória, mas é contra-indicado para os frágeis demais, cuja trama poderá parecer de difícil digestão. "Amor" requisita sensibilidade e muita, muita coragem.


"Amor" (França, Alemanha e Áustria - 2012)
Direção: Michael Haneke
Duração:126min.




domingo, 30 de dezembro de 2012

Quando a maior aventura é a sobrevivência - Sobre "As aventuras de Pi"

  
  Sabe a boa sensação de ser completamente surpreendido por um filme? Fazer uma escolha aleatória no jornal, cujos parâmetros utilizados foram: horário mais distante e local mais próximo, torcer um pouco o nariz para o gênero (aventura), mas, ainda assim, seguir em frente e ser "soterrado" por avalanche de boas surpresas e informações?  "As Aventuras de Pi" (EUA, 2012) foi a minha grata e, provavelmente, derradeira, grande surpresa de 2012.

  Porque fui completamente incauta, desavisada e mal informada assistir ao comovente filme de Ang Lee, eventualmente a falta de informação pode ser benéfica, porque não cria expectativas, preconceitos e, ainda, possibilita que o novo nos tome pela mão e nos leve ao lugar que precisaríamos mesmo conhecer, sem ao menos termos ideia desta nossa própria necessidade. Primeiro, não conhecia a estória "original" do romance de Yann Martel (A Vida de Pi, 2001), mas já conhecia o imbróglio que o autor canadense havia criado, quando lançou - e foi premiado - o livro com um mote muito semelhante ao do brasileiro Moacyr Scliar (um naúfrago que disputa lugar em um bote com um tigre, na obra de Martel, e um também naúfrago que também disputa um lugar em um bote, só que com um jaguar, em Scliar. Apesar da semelhança muito destacada o escritor gaúcho, falecido em 2011, elegantemente não processou Martel e aparentemente deu-se por satisfeito com a agradecimento do autor canadense, que passou a vir nas edições posteriores a descoberta da "inspiração". Enfim, o autor canadense admitiu que leu e "inspirou-se" em Scliar. No mais, tigres, jaguares, botes à parte, como filme a estória é muito envolvente.

  A narrativa tem seu início em uma cozinha comum, simples, familiar, tradicional das sociedades norte americanas, logo somos informados no próprio diálogo, entre os dois personagens (o que narra e o ouvinte da estória) que ambos estão no Canadá. O narrador é indiano e o ouvinte é um escritor canadense, que está em busca de uma boa estória para seu novo romance e, por indicação de um conhecido comum a ambos, procura Pi Patel. A única informação que possui é que Pi tem uma grande história e é partir desta necessidade/curiosidade do escritor, que somos também convidados a conhecer a história da vida de Pi Patel. 

  A estória inicia-se com a explicação para o nome de Pi, cuja escolha não fora um apreço paterno pela matématica, muito embora o personagem demonstre logo cedo sua vocação para "virar o jogo", relacionando o seu nome com o número irracional, conhecido por Pi. Só o  menino indiano já é um grande personagem, cheio de matizes, com questionamentos muito profundos, uma busca muito peculiar para questões existenciais, incomum para sua idade. Nasce em uma família com herança hindu (a mãe cultiva a religião mais como forma de não perder suas raízes, embora o pai de Pi, seja completamente discrente de qualquer religiosidade), desenvolve um amor pela história de Cristo, que conhece de maneira completamente casual e, ainda, sente o chamado de Alá, quando passa por uma mesquita na Índia. Mais tarde, na literatura (nas palavras, segundo ele) encontrará o consolo para suas angústias adolescentes e se aproximará  daquilo aparentemente mais racional, vontade do seu próprio pai. Pi Patel é um personagem sensível, que embora embuído de uma curiosidade inata, em função da superproteção familiar e do ambiente cheio de restrições e segurança onde cresceu, desconhece experiências mais desafiadoras e diversas. Mesmo a sua relação com os animais, do zoológico do pai, onde cresceu, é sempre intermediada e quaisquer laços são interrompidos, mesmo antes de serem estabelecidos, para "preservar" Pi, das possíveis surpresas.

  A vida de Pi, no entanto, sofre seu grande e definitivo revés, quando o pai, depois de perder o apoio da prefeitura local para seu empreendimento, resolve imigrar com a família para o Canadá, em busca de condições melhores para Pi e seu irmão Ravi. Pi, que acabara de descobrir o primeiro amor, na Índia, ressente-se da decisão paterna, mas segue com a família e uma parte dos animais do zoológico, em um navio, para a grande jornada que mudará seu destino. Durante uma forte tempestade, Pi sobe sozinho ao convés, sem prever o perigo que se aproximava. O navio começa a afundar, apesar de tentar, ele não consegue encontrar sua família, é empurrado pela tripulação para um bote, junto de uma zebra, que ao cair da embarcação quebra a pata, uma hiena, um orangotango e um tigre. Depois de  mais de 30 minutos de narrativa, a tal grande aventura de Pi tem seu início, o menino precisa sobreviver em um bote, em meio ao Oceano Atlântico, dividindo o restrito espaço com os quatro animais, três deles não resistem, restando apenas ele e o tigre de bengala, chamado Richard Parker. a relação mais sobressaltada é a dele com o, inicialmente, intratável tigre. A falta de comida, de água, os imprevisíveis fênomenos naturais, além dos incontáveis perigos em alto mar, não são as maiores ameaças a sobrevivência de Pi, seu desafio maior está em aprender a controlar o assustador Richard Parker. Seus dias são consumidos por estratégias que prolonguem sua sobrevivência, que afastem-no do perigoso tigre, embora quando surge-lhe a oportunidade de livrar-se do felino ele não o faz, por pena, cumplicidade e identificação, afinal ambos estão literalmente "no mesmo barco".

  Pi tem sua fé, remotamente tão ampliada, cada dia mais testada, ele reage, revolta-se, mas sempre volta a clamar seu Deus, seja ele qual for. Tem na fé seu consolo maior, tem na presença do tigre um motivo a mais para se manter firme e vigilante, em determinada parte da narrativa Pi afirma que o medo que tinha de Richard Parker salvou a sua vida. E por isso, que é preciso aprender a lidar com os nossos próprios medos, alimentá-los quando preciso, domá-los quando o momento for propício, aproximar quando ele passa a ser menos ameaçador e depois da trajetória cumprida, aprender a abandoná-lo, sem tanta dor. Porque serviu-lhe de companhia durante a dura jornada, mas sua presença eterna ceifa a liberdade e impossibilita uma vida plena. 

  Pi não acredita o tempo todo, como qualquer um de nós, diante de adversidades da vida. Pi tem desafios que sempre o surpreendem, chegam nos momentos de maior calmaria e, nessa estória, compreendemos o verdadeiro sentido de "um dia após o outro"; sobreviver mais um dia é privilégio, duramente conquistado. É na  própria vontade de acreditar  que a fé existe, é na vontade de viver que nasce um sobrevivente. É a história que construímos e naquela  que acreditamos que justifica nossa trajetória, a verdadeira estória é a que elegemos verídica, o resto todo é só para contar em um frio laudo. Fábula, história; aventura, drama; filme, livro; inspiração, plágio; tigre, jaguar, a vida nunca é feita de um único ponto de vista, "As Aventuras de Pi" é uma inspiração para aqueles que acreditam que a vida pode sempre surpreender, que amor e força podem ser aprendidos, em qualquer situação, e que nenhuma estória deve se limitar a uma só perspectiva.


Filme: "As Aventuras de Pi" (EUA, 2012)
Direção: Ang Lee
Duração:127 min.


Livro: "A vida de Pi" (2001)
Autor: Yan Martel
N° de páginas: 356

Livro "inspiração": Max e os Felinos (1981)
Autor: Moacyr Scliar
N° de páginas: 128


quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Não mirem-se nas mulheres de Atenas - Sobre "E agora, aonde vamos?"

  
  Mulheres em luto, vestidas de preto, algumas com lenços cobrindo a cabeça, semblantes pesados, faces austeras, como as viúvas personagens de Garcia Lorca . Os corpos em um monótono balanço, em uma coreografia fúnebre e dramática, é assim que a narrativa de "E agora, aonde vamos?" inicia-se. A comédia dramática tem a sensível direção de Nadine Labaki (também protagonista), premiada pelo igualmente delicado "Caramelo" (2007), um outro filme também feminino, não só pelo fato das protagonistas serem mulheres, mas, mais ainda, pela perspectiva muito peculiar sobre assuntos tão universais. 

  Em "E agora, aonde vamos"(2012), a guerra civil é tratada sob o olhar afetuoso e comovente de mulheres que perderam seus homens (maridos, filhos, irmãos) para um conflito injustificável. Em uma cidadela no interior do Líbano, cercada por minas terrestres, com difícil acesso e entretenimento restrito, mulheres com "M" maiúsculo tentam apaziguar os ânimos dos homens da aldeia, mais propensos a estourarem do que as próprias minas. Os Cristãos e  os muçulmanos, vizinhos, em um primeiro olhar, parecem conviver  pacificamente, em um ambiente de respeito e fraternidade mútua. No entanto, a narrativa ora com ares de fábula, permeados pelos pequenos números musicados, ora em estilo de anedota, com as cômicas estratégias elaboradas pelas mulheres, aos poucos revela que, na verdade, um conflito brutal está sempre iminente, poderá acontecer a qualquer momento, pelo menor motivo. Cabe então, às mulheres, tanto católicas, quanto muçulmanas unirem-se para que qualquer conflito, senão completamente extinto, permaneça, pelo menos, adormecido.

  O surpreendente convívio com as sensuais dançarinas ucranianas que chegam ao vilarejo, dão o tom da comédia na obra, as visíveis diferenças culturais, demarcam o quanto o feminino é diverso em um mesmo mundo, embora costumeiramente sejam tratadas como uma "única espécie". Assistimos também a aproximação comovente de mulheres culturalmente distantes: muçulmanas, cristãs e as urbanas ucranianas, todas se solidarizam e se envolvem no mirabolante plano de redenção da paz na comunidade.

  Por outro lado, a dor é retratada também de maneira pungente, no drama da mãe que esconde a morte do próprio filho para evitar o início de um conflito generalizado. Ela recolhe sua dor, afasta a revolta em nome de uma tentativa de manter os outros filhos vivos, assim como os filhos de outras mães. 

  A narrativa não é das mais perfeitas, a obra tem lá suas falhas, mas é otimista, é elogiosa, não somente às mulheres, mas, principalmente, ao feminino. A maneira, ao olhar, as soluções atribuídas ao gênero. O final é bastante fantasioso, mas aponta um caminho possível; o da empatia com aquilo que parece ser diverso. Pensem nas mulheres de Atenas, que Chico cantou:" (...)As jovens viúvas marcadas/ E as gestantes abandonadas/ Não fazem cenas/Vestem-se de negro, se encolhem/Se conformam e se recolhem/Às suas novenas/ Serenas", em comum, só o negro das roupas, porque em "E agora, aonde vamos?" as mulheres nunca se encolhem, conformam ou recolhem, elas vão à luta, a sua maneira, mas vão.


"E agora, aonde vamos? (França/ Líbano, 2012)
Direção: Nadine Labaki
Duração: 110 min.



quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Quando o belo não é tão certo - Sobre "Biutiful"

Javier Bardem

  Imagine descobrir que tem poucos meses de vida, é o único responsável por dois filhos pequenos, frutos de uma relação conturbada, cujo parceiro é mentalmente instável. Imagine ainda, que sua renda seja proveniente de uma série de trabalhos ilegais e por isso completamente inseguro e que ainda que você trabalhe por horas a fio, o dinheiro é pouco e a instabilidade é total. Pense ainda que o seu meio social é altamente desestruturado, pouco confiável e inseguro. Que herança deixará para seus filhos? O que você ainda poderá fazer por eles? 

  Este é apenas o mote inicial para a construção do belíssimo "Biutiful (2010)". Em uma sinopse rápida, daquelas que vem atrás do DVD, poderia levar o espectador imaginar que é meramente um melodrama familiar, mas o mexicano Iñárritu não é um diretor de obras assim tão "simples". Visto seu histórico que contemplam, entre outros, "Amores Brutos" (2000), "21 gramas" (2003)  e "Babel" (2006). 

  Na obra de Iñárritu o drama pessoal dos personagens estão intimamente ligados ao drama de toda sociedade, afinal, existimos somente a partir das nossas interações com o meio social e mesmo geográfico. Aqui, especificamente, vivenciamos a estreita relação do protagonista Uxbal (Javier Bardem) com a sua cidade, Barcelona, o lugar pouco acolhedor para o estrangeiro, especialmente o ilegal, é onde Uxbal ganha a vida; Uxbal é mais que urbano, suas variadas interações tornam-o a própria cidade. Além de explorar o trabalho de imigrantes africanos,  como vendedores ambulantes, ele ainda entra em negociatas escusas para empregar ilegalmente chineses na indústria têxtil e construção civil. A derrocada do anti-herói de Iñárritul terá seu auge, de maneira extremamente dramática, quando seus "negócios" sofrem trágicos reveses. Neste momento, assistimos o "empresário" se humanizar ainda mais diante da dor e do sofrimento alheio. O homem que explora a mão-de-obra estrangeira é também um homem cuja empatia pelo outro não é esquecida.

  A estética escolhida pelo diretor mexicano é muito realista, as imagens são "sujas", com lugares mofados, pichados, pinturas desgastadas, ambientes claustrofóbicos, lixo, desordem. E tal escolha possibilita ao espectador compartilhar com Uxbal um pouco do seu desconforto, sua dor (tanto a física quanto a da alma). 

  Ainda há, no filme, alguma perspectiva mística, pois Uxbal comunica-se com os mortos. Logo no início da narrativa, o espectador é apresentado a essa faceta do protagonista. Testemunhamos Uxbal receber pequenas contribuições monetárias pelo serviço, ainda que seja orientado a não fazê-lo pela sua mentora espiritual. Ele até compreende a orientação, mas não segue, porque suas necessidades terrenas parecem muito mais urgentes.

  O homem "acostumado" a morte, foge dela grande parte da narrativa, corre contra o tempo. Precisa de dinheiro, de alguém confiável para cuidar dos seus filhos, deixar uma vida organizada antes de partir. Mas, conseguirá em meses, o que não conseguiu uma vida inteira? Uxbal dependerá de desconhecidos, logo ele que conhece a "sujeira" do mundo, seu universo é um emaranhado de ilegalidades, droga, álcool, relações doentias, corrupção, exploração; em quem Uxbal poderá confiar? 

  O nome do filme "Biutiful", da ortografia errada da palavra inglesa beautiful, tem origem em uma cena simplória e ao mesmo tempo comovente, em que ele ensina a lição de casa para a filha mais velha. Uxbal não é um herói, não é um pai ideal, profissional, nem ao menos místico ideal, mas tenta a todo custo acertar, principlamente no papel de pai. Ele erra na lição, erra na vida, mas deseja ter a chance de deixar algum legado, alguma segurança aos seus herdeiros. O filme de Iñárritu é inquietante, triste, melancólico, propõe discussões sociais doloridas, mas é bonito, de uma forma diferente, mas ainda assim muito belo. A beleza de "Biutiful" está em compreender que mesmo da maneira menos ortodoxa e clássica, por amor, desejamos sempre acertar. Nós, Uxbal e tantos outros erramos todos os dias, mas, pelo menos aqui, o diretor mexicano acertou muitíssimo. Este é um filme para quem não teme a beleza escondida, não-clássica, a beleza que esconde-se sob os erros, a única realmente verdadeira.


"Biutiful" (Espanha/México - 2010)
Diretor:Alejandro Gonzalez Iñárritu
Duração:147 min.