Sucesso de público

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Como esquecer Elena?


  Eu senti Elena. Além de assisti-lo, também o senti. O vi há alguns meses e desde então, ele vive dentro de mim, pulsante. Ora me afogando nas mesmas águas turvas de Elena, ora nadando nas águas límpidas de sua irmã Petra. Por vezes  bailando, sorrindo e interpretando, outras tantas, angustiada, perturbada e fracassada. Elena inteira; Elena em fragmentos. Não se assiste a um filme desses e simplesmente recomenda-o ao amigo, não se diz : - Vai lá assiste que é bom. Porque Elena ( Brasil, 2012) deve ser sentido, precisa ser sentido; e só quem pode fazê-lo são os frágeis-fortes de alma. Só a contradição dos adjetivos pode fazer sentir Elena, porque cada parte sua deve ser inteiramente perscrutada, sem medo, com a coragem de coração e corpo. Porque depois de Elena, o corpo também se exaure em água, dança, dor, memórias próprias e dos outros e, principalmente, em poesia.

  O filme resgata as memórias de uma família, de uma atriz, uma ardorosa amante da arte, a bela Elena; traz à cena o olhar doloroso de uma irmã marcada pela ausência daquela com quem dividira genes, pais, casa e perspectiva de futuro; uma mãe mutilada pela tragicidade da morte prematura e inexplicável de uma das filhas. Três mulheres atreladas ao destino definitivo e perturbador de uma delas. 

  O documentário de Petra Costa é quase um tratado poético sobre os laços afetivos e, no caso dela, também biológico. Em Elena, somos confrontados com o entendimento angustiado da profundidade da nossa ligação com aqueles que amamos; o quanto as decisões por quem temos tanto afeto, irão nos impactar de maneira irremediável. E o quanto nós, involuntariamente, influenciamos o destino das vidas que tomamos emprestadas ou definitivamente para nós, sem ao menos, nos darmos conta. O filme nos lembra a todo instante o quanto estamos fatal e irremediavelmente condenados aos laços. Não há como fugirmos deles. Não apaga-os, não afoga-os, não os enterramos nunca. Elena é um ensaio sobre família, laços e memória.  Além, é claro, sobre o papel determinante da arte na vida de três incríveis mulheres.

  Elena, a personagem título, tem a beleza da outra, com "H" da mitologia, uma beleza impactante, dessas para muito além do estético; diáfana com uma deusa. Sedutora, ela tem como seu amante mais permanente, a arte. Elena ama e se declara constantemente a esse seu amor.  Entre as emoções contraditórias de uma relação amorosa ela vive e morre pelo seu amante. Passional ela ameaça: "A arte para mim é tudo,  sem a arte eu prefiro morrer". E Elena é o excesso; quando ela não suporta não é pela ausência, porque Elena sobra, Elena tem excessos demais na alma, Elena não morre, transborda e por isso o filme dói com beleza.

  Depois de Elena é preciso que se sobreviva. Mas sobreviver como? Sem Elena? Como esquecer Elena? Depois de Elena, pelo menos duas almas destroçadas, a de uma menina e a de uma mulher. Mãe e irmã da deusa desaparecida precisam curar suas dores e o próprio medo da desistência. Cada qual atrelada, agora mais estreitamente, uma a outra. A terceira partiu. Das três, restam duas. E decisão melhor é não lutar para esquecer, mas lembrar e de tanto lembrar, resgatar; para só assim,  despedirem-se. 

  Elena é a personagem e também o filme; duas Elenas separadas pelos destinos diferentes que a arte marcará as duas trajetórias; para a personagem, sua morte; para o filme, sua salvação. Eu não assistiria a Elena eu o sentiria. Elena foi-se e deixou para trás dor e poesia. Elena não é para os fracos. Elena é para os sensíveis, para os que se deixam levar pelas águas curadoras da poesia.


"Elena" - Documentário (Brasil, 2012)
Direção: Petra Costa
Duração: 82 minutos





sexta-feira, 31 de maio de 2013

Das limitações - Sobre "Ferrugem e osso"

  
Marion Cotillard e Matthias Schoenaerts
 
Eu o escolhi, veria no meu aniversário; li uma sinopse rápida e não precisava de mais. Era ele. Uma hora antes e eu chegava ao cinema decidida, até que: - Não há mais ingressos para este, moça. Quer ver outro? Eu não queria, este era o filme do meu aniversário. Aniversariante sem escrúpulos, ainda usei o "meu dia" para sensibilizar a atendente e depois a gerente, porque pedi sim a intervenção dela. Voltei para casa sem assistir o filme aquele dia, mas eu sabia que "Ferrugem e Osso" era o meu filme "de aniversário" e depois de 15 dias ele me foi "entregue". Presente inesquecível que me dei.

 Em "Ferrugem e Osso" acompanhamos o nascimento de uma relação inusitada, inesperada até e, mais tarde, completamente justificada. A atraente Stéphanie (Marion Cotillard)  é uma jovem treinadora de orcas de um parque aquático no litoral francês que conhece Alain (Matthias Schoenaerts), o segurança de uma boate que ela frequenta, em um lance do destino. Com relações sociais, vida e laços completamente opostos, ambos jamais se reencontrariam se não fosse o desespero de Stéphanie e a disponibilidade de Alain.

  A treinadora de orcas sofre um acidente no trabalho e perde as duas pernas, completamente deprimida, afastada do convívio de amigos e familiares, provavelmente pela dificuldade de lidar com os sentimentos daqueles que a amam; possivelmente o olhar de compaixão é um dos mais dolorosos. Ela resolve ligar para o segurança que conheceu apenas superficialmente, pois estabelecer uma relação com quem não a conhecia de maneira mais profunda, parece menos doloroso. Alain, que sobrevive e tenta sustentar um filho de cinco anos, com pequenos trabalhos como segurança é um homem pouco sensível, truculento e impaciente e através dessa relação aparentemente improvável é que ambos serão capazes de superar seus limites. Ela a física e ele a emocional.

 O fato de Alain ser completamente desprovido de sutilezas e não demonstrar nenhum pesar em relação a nova situação da treinadora é o que traz Stéphanie para um mundo mais simples, tosco em que reaprender a exercer as atividades mais banais não parece dramático, nem digno de pena. Alain, involuntariamente, ensinará à Stéphanie um novo jeito de caminhar. Stéphanie, através de Alain, encontrará novas possibilidades de felicidade, desejo e liberdade.

 De um outro lado, assistimos a um filme que fala sobre vocação, que eventualmente confundimos com trabalho, profissão. Aqui, ambos coincidem, mas na vida real nem sempre acontece do mesmo jeito. Stéphanie é uma competente treinadora de orcas, ensina animais perigosos a realizarem belas coreografias, tem como vocação domar feras e transformá-las em artistas de um espetáculo primoroso. Esta é a vocação (do latim "chamado") de Stéphanie e mesmo longe das orcas, ela atende ao seu mais caro chamado. Alain é a orca, homem selvagem que precisa ser "treinado" a superar suas limitações emocionais. Assim como faz com as orcas, a treinadora conhecerá Alain, ganhará, aos poucos, sua confiança, para mais tarde estreitar laços afetivos e finalmente, transformá-lo em uma beleza domada. 

  Há, ainda, a relação conturbada de Alain com o filhinho frágil que somente será resolvida depois que Alain conhecer a dor e mais que a dor, carregar as cicatrizes provocadas por esta dor. No final do filme Alain é capaz de concluir com um pensamento bastante sensível, algo do tipo: - Não é a dor que ensina, uma dor esquecida é passado. São as cicatrizes que ainda doem que nos trazem a lembrança dessa dor, só elas é que ensinam, de verdade.

  "Ferrugem e osso" é uma bela estória que ensina que as limitações são passíveis de superação; que as relações nem sempre são aparentemente ideais, mas são elas que nos levam a um outro estágio necessário; ensina que em alguma medida somos chamados a cumprir nossa vocação e se não nos recusarmos nós podemos sempre transformar e sermos tranformados. 

"Ferrugem e Osso" (França/ Bélgica - 2012)
 Direção: Jacques Audiard
 Duração: 120 min.




 

terça-feira, 7 de maio de 2013

Humanos... sobre "Somos tão jovens"


Thiago Mendonça

  O que faz com que um alguém se torne um ídolo? Quais as características super especiais que alguém precisa carregar para sobressair-se, conquistar e deixar um legado artístico para uma sociedade? Qual é a medida da obra de um artista, produtividade, popularidade ou relevância para o seu tempo? A cinebiografia de um dos maiores artistas brasileiros não responde diretamente tais perguntas, mas ilumina tais reflexões. "Somos tão jovens"( Brasil, 2013), ainda que exista controvérsias, é sim, um ótimo filme sobre uma figura das mais importantes do cenário, variadíssimo, da música brasileira.

  O filme, entre seus personagens verídicos, facilmente reconhecíveis, do Rock brasileiro da década de 80 e alguns "inventados", traz a história da vida pré-ídolo de Renato Manfredini Júnior, o Renato Russo. O adolescente curioso, ávido por conhecimentos diversos: astrologia, filosofia, literatura e música (mais tarde podemos comprovar cada uma das influências desses temas em sua obra), entre erros e acertos, tentativas, muitas vezes desastradas de formar sua tão sonhada "banda punk", muda seu gosto, tema, se reinventa e, mais tarde, cria mais que uma banda, um jeito próprio de compor, se apresentar, cantar e até mesmo, viver.

  O maior mérito do filme não é, de maneira alguma, retratar de modo fiel os caminhos para a construção de um ídolo, pelo contrário. A produção cinematográfica mostra um sujeito completamente humano, antes de tudo falível, imperfeito, caótico, passível das piores mazelas a que todos nós também estamos expostos. Um indivíduo se construindo e dialogando o tempo todo com suas questões morais, filosóficas, afetivas e profissionais. Um jovem questionador crescendo em meio (no olho do furacão) de um poder ditatorial, excludente, violento, coercitivo que ora cheio de coragem, ora crédulo da sua incapacidade de lutar, transgride, subverte e também reflete sobre a sociedade a seu redor e, com a mesma profundidade, a sua confusão individual, através das suas composições.

  A mim, pareceu-me inevitável algum grau de identificação com o protagonista, os sentimentos contraditórios, a vontade de fazer tudo e nada,  a sensação de se sentir vazio e ao mesmo tempo cheio, a necessidade de ver o mundo de forma complexa e também singela, mas o que difere um homem comum de um artista é a capacidade de transformar a sua  angústia (e a dos outros) em obra permanente.  E Renato fez música. Música para os amores não realizados, música para sua insatisfação com a política do país, música de pedido de desculpas, para o medo, para as incertezas (tanto as individuais, quanto as coletivas), música que contava estórias que todos precisavam saber, música para o seu caos, o caos do país, do mundo, contou a própria história, a dos seus amigos e a até, aquele nosso mais secreto e inconfessável drama.

 Eis o segredo de um grande ídolo: fazer o que é preciso, com arte, dizer o que todo mundo quer dizer ou ouvir com poesia. Renato Russo é o ídolo, o resto é celebridade, tão ou mais efêmera que os poderosos de Brasília. O cantor e compositor que sempre mereceu lugar especial no meu MP3, depois dessa sessão de cinema, ganha uma proporção mais humana e, ainda mais, admirável aos meus olhos e coração. 


"Somos tão Jovens" (Brasil, 2013)
Direção: Antônio Carlos da Fontoura
Duração: 104 min.






segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Alguns perdem mais que os outros - Sobre "Jovens Adultos"

Charlize Theron
  "Não se conhece um livro pela capa", é quase sempre um bom conselho, mas entre reconhecer isto e seguí-lo, há uma distância bastante considerável. E, assim sendo, nos primeiros minutos da trama de "Jovens Adultos" rendo-me a infeliz anti-heroína Mavis Gary, em um misto de pena, desejo de redenção e "vergonha alheia", e por isto, justifico quase todas as sucessivas trapalhadas que a personagem de Charlize Theron se envolve. Isto somente no começo da narrativa, até que, as atitudes de Macy se tornem cada vez mais injustificáveis.

  Macy Gary está recém divorciada, é uma "ghost writer" (autora que escreve, mas não assina) de um sucesso adolescente em franco declínio. É bonita ("linda de doer", na verdade), aparentemente bem sucedida, mas visivelmente infeliz. E talvez em razão dessa melancolia atraente, que Macy cative o incauto espectador. Em uma decisão aparentemente súbita, depois de receber um e-mail genérico de seu ex-namorado, com o convite para conhecer sua filha recém nascida. Macy decide "fugir" da infelicidade que a cerca e viaja rumo ao que abandonou um dia, seu passado na pequena cidade de Minnesota, EUA. De maneira mais específica: Macy parte em missão, para salvar o ex-namorado, da vida pacata na cidadizinha que ela tanto despreza. 

  Nos "bastidores" dessa viagem é que, aos poucos, Macy começa a ser desmascarada, sua "beleza grega" é, na verdade, um amontoado de próteses estéticas (capilar, de seios, quilos de maquiagem), os diálogos dos seus livros para "jovens adultos" (eufemismo para "infanto juvenil") são "roubados" de conversas adolescentes reais que ela sorrateiramente ouve e transcreve. A Macy cotidiana é triste, despreocupada com a sua aparência, é desprovida de qualquer gentileza e simpatia, mas "traveste-se" de uma mulher bonita, bem sucedida e quase feliz, para reencontrar-se com Buddy (seu ex-namorado), a personificação dos seus áureos tempos de escola. Seu primeiro reencontro, ao chegar à cidade, no entanto é com o "desconhecido" Matt, colega de escola, de quem a popular aluna, de início, não se lembrará. Matt e Macy serão a inesperada e improvável dupla responsável pelas maiores reflexões que o filme despertará.

  "A rainha da beleza" dona do trófeu de "cabelo mais bonito" da escola - que por ironia sofre de tricotilomania (mania de arrancar os próprios cabelos), talvez em uma alusão a seu comportamento autodestrutivo (em uma análise mais profunda: fruto de uma conduta que a levará à morte social, solidão e depressão imposta a si mesma; Macy não se sente merecedora de nenhuma benesse que a vida lhe dê.) - será amparada por Matt o colega nerd da escola, que carregará os traumas e sequelas de um espancamento coletivo pelos atletas da escola, os "amigos" de Macy. Esses dois "infelizes", aos poucos revelarão muitas similaridades, até então, impensadas. Ambos são incapacitados pelas suas "deficiências", a de Matt, que é física acabou-se ampliando para o campo emocional, rancoroso, magoado, ele "decide" não superar o passado, pelo contrário, suas justificativas para uma vida incompleta e precária estão atreladas à violência sofrida; já Macy tem a deficiência do afeto, ela é incapaz de amar alguém (nem família, cachorro ou Buddy), alguma coisa (está em crise profissional e parece só fazer pelo dinheiro) ou algum lugar (sua cidade natal é seu inferno pessoal, a cidade atual é só um meio para o sucesso); ambos dividem um desprezo para os com "felizes sem razão", sujeitos que convivem bem com as "ausências" que a vida impõe, o deficiente físico, o morador comum de Minnesota, enfim qualquer ser ordinário, que aprecia a própria vida. Unidos pela infelicidade a dupla nos despertará para o questionamento: Quantas deficiências carregamos e quantas superamos?

  Depois de uma série de eventos vexatórios e que talvez servisse como um degrau para o crescimento de qualquer um de nós, Macy despreza o aprendizado e segue sendo o que sempre foi: "rainha de coisa nenhuma", incapaz de aprender, crescer ou se libertar da dura pena que é a de ser completamente desprovida de afeto e doação. Macy não tem sua redenção, por opção própria, o filme não tem final feliz e por isto é maravilhoso. "Jovens adultos" é um tratado bastante atual sobre personagens que crescem, mas não amadurecem, o filme desperta para a dura, mas necessária reflexão: o quanto estamos perdendo, enquanto só queremos ganhar. O quanto estamos presos a uma imagem fantasiosa que fazem de nós mesmos e nos esquecemos de quem somos, quando sozinhos, trancados no nosso apartamento. Ser feliz está muito longe de "parecer feliz", não há prótese possível para a falta maior, que é a de faltar-se a si , não há extensão artificial para a falta de volume no espírito, nem maquiagem que transforme uma alma precária. Doar-se, sem pedir nada em troca é a maneira mais genuína de ampliar ganhos, mas isto é coisa para adultos, que mais do que crescer, amadureceram de fato. O filme é perturbador, pessimista e, finalmente, altamente recomendado.


"Jovens Adultos" (EUA, 2012)
Direção: Jason Reitaman
Duração: 94 min.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Escolha o seu lado - Sobre "O lado bom da vida"

Bradley Cooper
  
  No jornal local as sinopses dos filmes em cartaz não são nada confiáveis, mas ele é, ainda, a minha maior fonte de "consulta" sobre o assunto, porque a informação quanto ao horário das sessões é, até hoje, preciso. E é tudo o que eu realmente desejo saber sobre um filme antes de vê-lo. 
  
  O gênero, de acordo com a publicação, é comédia romântica, disso também desconfio, só no último mês, dois dos filmes que vi, não correspondiam ao gênero anunciado na coluna. Que seja, gosto de surpresas. A companhia para o programa também não podia ser melhor, assistiu o filme duas vezes, em casa, e quase nada me revela sobre ele. Ela gostou, possivelmente eu também goste. Não sou exigente e gosto, sem medo algum de admitir, muitíssimo de comédias românticas (não julguem-me por isto!). Não preciso justificar meus gostos, tampouco este até bem comum, mas ainda assim o faço: afora as análises muito rígidas sobre tal estilo de filme "mulheres gostam porque este gênero de película repetem os modelos dos contos de fadas infantis, em que um 'príncipe encantado' surge para salvar a mocinha de um mundo de infortúnios"; carrego comigo a crença de que as comédias românticas são o bálsamo em meio a uma vida de dureza, obrigações massantes e uma realidade cruel, imperfeita e permeada de desencontros. Tal gênero, a mim, possibilita algumas horas de uma respiração descomprometida fora do meio, tantas vezes, sufocante, que é a vida cotidiana. Happy ends cinematográficos são a visão, ainda que perecível, de uma paisagem otimista. O filme, no entanto, adianto para quem não viu, não é uma comédia romântica e sim dramática. Neste caso, a informação imprecisa não comprometeu. A mim, fez um "efeito" de comédia romântica, com os impactos que acabei de listar.

  "O lado bom da vida", é uma adaptação do primeiro romance do professor de inglês Matthew Quick. O filme, sucesso de público (indicado a oito categorias do prêmio Oscar de 2013) conta a estória de Pat Solitano (Bradley Cooper) e se passa em um típico subúrbio americano. Inicia-se com a saída dele de um hospital psiquiátrico, ainda que não recomendada pelos médicos, mas autorizada e muito desejada pela sua mãe. Pat, diagnosticado com bipolaridade, precisa se adaptar a um nova vida, repleta de limitações: sem esposa, de quem está judicialmente proibido de aproximar-se; sem emprego e sem a própria casa, além , é claro, da rotina enfadonha do próprio tratamento, com visitas ao terapeuta e medicação controlada. O retorno de Pat ao convívio social, é dos mais comoventes, o "otimismo químico", a falsa sensação de retomada do tempo perdido, a emoção da família em vê-lo de novo, o desconforto dos amigos que não o visitaram e as suas desculpas tão pouco verídicas, tudo está lá. 

  Obcecado pelo retorno da "vida anterior", pela mulher, a qual torna-se a grande meta e objetivo de "cura" e evolução, Pat nos rouba o coração, sensibiliza e nos força a algum tipo de identificação. Seja pela fragilidade (no seu caso a doença psíquica), pelos momentos de euforia intercalados com depressão e fúria, seja pela vontade genuína de ser melhor para alguém. Aos poucos somos apresentados à família, amigos e, finalmente, à dinâmica a qual Pat precisa se adaptar: a mãe amorosa, abnegada e excessivamente zelosa; ao pai jogador compulsivo, rígido, claramente afetado pelo TOC, ao irmão tosco, não suavizado por qualquer verniz de sofisticação ou delicadeza, ao melhor amigo, cheio de boas intenções, mas completamente controlado pela mulher. Pat receberá ainda as visitas do amigo da clínica, em fuga, frequentemente, e conhecerá Tiffany (Jennifer Lawrence), com quem veremos aflorar uma relação conturbada, mas, ao mesmo tempo, delicada, enriquecedora e repleta de entendimento mútuo.

  Pat e Tiffany, aos poucos formarão um casal,  bem pouco convencional, é verdade, mas muito promissor. Pois ambos são a doença e a cura; o que impede e o que impulsiona; são a loucura e a sanidade; agressividade e sutileza; são ódio e amor, tudo junto, ao mesmo tempo e aprendem um com o outro a dinâmica de uma relação muito própria. À certa altura do filme, compreendemos que os sonhos de Pat Solitano não são passíveis de realização e o passado de Tiffany não poderá ser apagado, mas isto nem ela mesma deseja, quando diz a frase emblemática: "eu tenho um lado sujo e gosto dele também" e Pat descobrirá outras metas, outros sonhos, outros motivos para desejar melhorar.

Não sei se pela sensação de comédia romântica, não sei se pela dança (que adoro) - Tiffany e Pat participam de uma competição - não sei se pela trilha sonora  pouco convencional, com destaque para "Girl from de North country", de Dylan e Cash, pela interpreyação de Robert De Niro, com quem sempre me emociono  ou mesmo pelo tema, mas "O lado bom da vida" conquistou meu coração.

  O filme nos faz pensar que, amar, é também entrar na loucura de quem se ama, para só assim ser possível tirá-lo de lá. Amar, inclusive, é respeitar e nunca temer a loucura alheia, nem a própria. Que o sucesso da última dança não consiste em dançar um único estilo com perfeição, mas somente o suficiente de uma variedade maior de estilos. Em um mundo cada vez mais exigente, mais apegado à perfeição, ser razoável talvez seja a maior fonte de felicidade. O lado bom é muito mais o olhar que ofertamos para cada situação, do que a situação em si. Nisto o filme não é nem um pouco trivial. Meu coração ele já tem e, só por isto, eu já daria o Oscar para ele. Porque, para meu entendimento, eis a maior propósito do cinema: emocionar. A mim, por estas e outras infinidades de razões que jamais poderei explicar, o filme tocou.


O Filme: "O lado bom da vida" (EUA, 2013)
Diretor: David O. Russel
Duração: 122 min.

O Livro: "O lado bom da vida"
Autor: Matthew Quick
N° de páginas:256



terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Sonhos que movem - Sobre "os Miseráveis"

Anne Hathaway

 Como recontar uma estória escrita há mais de um século (1862), já  com dezenas de adaptações para o cinema, televisão e teatro e ainda assim despertar um crescente interesse do público contemporâneo, aparentemente cada vez mais ávido por novidade? Como a adaptação de uma adaptação (o filme é a adaptação,  do musical da Broadway "Les Misérables", de 1987, adaptada da obra de Victor Hugo) pode ser tão bem sucedida entre o público e crítica e ganhar novos fãs a cada dia? Como um musical, com duração de quase três horas, pode "aprisionar" até um espectador pouco simpático aos musicais, na cadeira do cinema? Como em uma única fita abordar temas, aparentemente tão diversos, como: injustiça, perdão, redenção, fé, ideologia, política, amor romântico e, ainda assim, dar conta de todos eles, sem "atropelar" o espectador?

  O sucesso de "Os miseráveis"(2013), parece-me ser a linha discreta, porém visível, que alinhava a emocinante saga de Jean Valjean, condenado a uma dura pena por roubar um pão para alimentar o sobrinho faminto, que encontrará sua redenção no amor fraterno de um religioso que possibilita uma nova chance ao homem injustiçado. A linha que costura as estórias do filme (o recomeço de Jean Valjean, a obstinação do inspetor Javert em prender o "fugitivo" Valjean, o triste destino de Fantine, a adoção de Cosette, a ambição sem limites dos Thénardier, o amor não correspondido de Éponine por Marius, a revolução francesa, a reciprocidade de afeto entre Cosette e Marius e, finalmente, o desprendimento de Jean Valjean, para que a filha conhecesse a felicidade) é a, algumas vezes trágica, mas sempre propulsora linha chamada, sonho. Em " Os Miseráveis" todas as personagens são conduzidas e, mais, impulsionadas, pelos próprios sonhos. Seja de maneira mais individual (Fantine que sonha em ter por perto a filha Cosette) sejam aqueles mais coletivos (como os ideais dos revolucionários franceses), todos lutam por algum sonho. Alguns caírão durante a dura batalha, outros poucos permanecerão de pé, mas todos experimentarão a força que move a humanidade - o sonho. 

  E, é exatamente através desta "linha" que um dos musicais mais emocionantes do filme será conduzido, a cena de Fantine (a incrível  e afinadíssima Anne Hathaway) cantando um dos temas mais bonitos de todos os tempos, a linda "I Dreamed a Drem") é tocante. Para quem conheceu-a na voz da até então desconhecida e estranha caloura do famoso show de talentos inglês, Susan Boyle, há anos atrás, talvez emocione-se ainda mais. Porque a memória subjetiva trará à superfície, a história também triste de uma personagem real, cujo sonho torna-se motivo de vergonha, juntamente com a personagem de Victor Hugo, que tem seus sonhos despedaçados, ambas, por um momento, dividem  a mesma perspectiva. É como se Susan e Fantine carregassem um pouco de nós em cada desilusão, cada triste derrocada e nós as trouxéssemos conosco em cada sonho nosso, ainda possível.  Por apenas uma linha tênue o fracasso e o sucesso, de um lindo sonho, estão separados.

  Emocionante também é a estória de Éponine, personagem cujos modelos familiares negativos não são capazes de torná-la egoísta ou má. A filha dos Thénardier não mede esforços para ver seu amado feliz, ainda que isto signifique estar ao lado de alguém que não ela. Este amor abnegado também é virtude de Valjean que mesmo desejando a companhia de sua amada filha Cosette, decide deixá-la viver seu amor com Marius, protejendo-a de seu passado obscuro.

  Suspeito que poucos são os que não se emocionarão. Terminado o filme, saímos do cinema com a forte sensação de que miseráveis mesmo são os que nunca sonham, que nem ao menos têm a possibilidade de verem seus sonhos despedaçados. Miseráveis são os que não deixam-se impulsionar por um grande sonho.  Existe maior pobreza que falta de sonho?


Em tempo: Lembrar-se de Susan Boyle ao assistir ao filme não é uma simples "brincadeira do destino". Li isto, ontem:  http://caras.uol.com.br/data/oscar-2013/post/susan-boyle-motivou-a-adaptacao-de-os-miseraveis-para-o-cinema-diz-produtor-teatral#image0

"Os miseráveis" (Reino Unido, 2013)
Direção:Tom Hooper
Duração: 158 min.




segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

"O que não tem censura nem nunca terá...o que será, que será" - Sobre "Amor"

  
  Nunca conherecemos nosso próprio limite até sermos postos à prova. Só compreenderemos, de fato, até onde somos capazes de ir, até nós irmos (porque "iríamos" é possibilidade, não é o chegar lá) ao que consideramos nosso máximo. Eu faria, seria, escolheria, entregaria é vago; é suposição, somente possibilidade. É só quando a situação é presente, que sabemos quem somos e até onde vamos ou nos deixamos ir.

  O filme chama "Amor", é francês , é um drama e a surpresa é que não há um só clichê em toda obra fílmica. Só o fato de fazerem um filme (meio que se utiliza-se da "arte de iludir" e, frequentemente, "recicla" inúmeras  referências já conhecidas) francês (com aquela tonelada de estereótipos sobre o país) e com este título perigoso (já que permite uma série de expectativas) sem parecer um "déjà vu", só por isso já vale conferir.

   Em "Amor", primeiro somos convidados a conhecer um simpático casal octogenário, independente, aparentemente harmônico e muito afetuoso, casal daqueles que muitos de nós já sonhamos em compor, um dia. Depois de voltarem de um concerto - a esposa Anne é uma professora de música aposentada e ambos são apaixonados por música clássica - conhecemos um pouco da intimidade delicada do casal, a volta para casa no transporte coletivo, o apartamento e seus móveis, livros, CD's, um pouco do cotidiano banal, medo da insegurança urbana. Já na manhã do dia seguinte, a trama ganha uma nova trajetória, as amenidades são substituídas por momentos de profundas incertezas, vulnerabilidade e adaptação. Anne sofre um AVC (acidente vascular cerebral), é internada para desobstruir uma artéria e nas palavras do próprio marido Georges, ela faz parte dos 5% de insucesso, das estatísticas. A cirurgia fracassa, Anne tem alta e volta para casa com o lado direito completamente paralisado. Já na sua chegada ela pede ao marido que nunca volte a interná-la, pois pretende terminar os seus dias no apartamento do casal. Georges e Anne têm, ainda, uma filha, pouco presente, uma musicista casada com um maestro renomado, que tenta convencer o pai a oferecer à mãe apenas os cuidados de especialistas. Mas, Georges mantém-se firme, até as últimas consequências, na promessa de não internar a esposa.

  A partir da nova condição de Anne, as inúmeras adaptações passam a ser frequentes e mais pungentes. Georges, seu fiel e doce companheiro, assume um novo papel, pois se antes ele era a parte mais frágil do casal, aquele que é "cuidado" pela parceira, ele rapidamente torna-se o cuidador da companheira debilitada. E nesta nada fácil missão, vemos a superação de um homem (aparentemente tão frágil), a dedicação ilimitada de um companheiro e a luta pela recuperação da saúde, conquista do bem estar (aceitação e conforto) e manutenção da dignidade de ambos.

  Aos poucos, somos convidados à reflexão e a identificação com a trama comovente e cada vez mais dura a qual acompanharemos. Não comover-se, a esta altura, creio não ser possível, afinal quem já testemunhou um ente querido paralisado, em sofrimento constante, sem medicina ou afeto possíveis, que curem ou, pelo menos, aplaquem a constante deterioração do ser que amamos, chora. Quem pensa ou já  pensou no seu destino futuro se compadece e também deixa as lágrimas rolarem. Anne sofre um outro AVC, tem sua capacidade de fala e raciocínio afetados, Georges conta com a ajuda de apenas uma enfermeira e parece cada vez mais debilitado. Neste momento da trama nos tornamos testemunhas oculares de um crime (?) motivado por amor, mas que não é passional, que pretende agir em defesa da vida, mas que não é legítima defesa. Um crime justificável e justificado. Em "Amor", compreeendemos que amar, às vezes, é fazer algo terrível, mas que você sabe que aplacará a dor de quem se ama; é colocar-se à disposição de uma culpa eterna para oferecer conforto ao outro.

  "Amour" merece ser visto, revisto e, principalmente, "sentido". Não vê-se uma estória dessas e se sai o mesmo, não entra-se na sala de cinema e continua leve a comer a pipoca; refrigerante ou água não tirarão o nó da garganta.

  Vale, ainda, o conselho: o filme é indicado para os suficientemente sensíveis que se entregarão e serão tocados pela estória, mas é contra-indicado para os frágeis demais, cuja trama poderá parecer de difícil digestão. "Amor" requisita sensibilidade e muita, muita coragem.


"Amor" (França, Alemanha e Áustria - 2012)
Direção: Michael Haneke
Duração:126min.